CALIFA 33, O REPÓRTER POLICIAL DE CURITIBA E SUAS HISTÓRIAS

CALIFA 33, O REPÓRTER POLICIAL DE CURITIBA E SUAS HISTÓRIAS

Na década de 1970, centenas de curitibanos esticavam o pescoço quando passavam pelas imediações da Praça Tiradentes. Procuravam um Fusquinha – um Fusquinha que levasse a bordo um “turco” de bigodes, nariz de boxeador, cigarro entrededos. Se o viam, corriam para alcançá-lo com a pressa dos que fogem da friagem. Não perdoavam: faziam críticas à polícia, diziam impropérios contra a prefeitura. Depois pediam um autógrafo para exibir em casa, como se tivessem encontrado um daqueles heróis dos quadrinhos que salvam cidades dos malfeitores. Seu nome – Califa, o Califa 33.

No tempo em que Ali/Califa debutou na imprensa, ser chamado de repórter policial não era propriamente um elogio. Os “carrapichos”, apelido dado aos jornalistas de porta de cadeia, tinham espaço cativo nas rádios, jornais e tevês, tamanha a paixão pelo noticiário sangrento, tradição brasileira desde o final do século 19. Mas jamais seriam chamados para entrevistar um presidente da República. Faziam rondas em delegacias. Não raro assimilavam a linguagem e a mentalidade dos policiais. E dos marginais.

Foi nesse cenário que Chaim se firmou como um carrapicho de elite, estrela do Show da Notícia do Canal 4, para citar um. “Meu segredo estava na maneira como eu tratava os presos. Gostava de levar um lero com os malacos”, conta. De fato. Califa se aproximava de bandidos de maneira inesperada – “onde foi que você patinou, simpatia?”; “sua mãe sabe disso?”; “cadê a carteira de trabalho, filho?”; “precisava atirar?”. Arrancava lágrimas dos detentos, reportando-as logo depois. De tão boas, essas tramas faziam bem ao ouvidos do escritor Dalton Trevisan, um dos muitos amigos intelectuais do irreverente Chaim, um sujeito pouco dado a concordâncias nominais, curtido na informalidade das mesas de bar.

 

A performance do jornalista junto à marginália chamou atenção do cineasta catarinense Yanko Del Pino, 52, que revirou arquivos do Museu da Imagem e do Som, o MIS, em busca do Ali perdido. O resultado da empreitada é o documentário Califa 33, por ora no circuito dos festivais. Impressiona no filme ouvir Chaim entrevistando um recém-baleado. Mostrando a tragicomédia das galinhas que bicaram cocaína jogada num terreiro para despistar a polícia. Ou indagando de uma menina de 5 anos quem permitiu que caísse nas garras de um abusador. “O Califa é do tempo que não tinha Ministério Público”, diz Yanko, sobre o homem que, a seu modo, fazia as vezes da Justiça. Fazia.

fonte: Gazeta do povo